Direito
    10/06/2024
    6 min

    Compliance: O Que É e Como Funciona

    Compliance: O Que É e Como Funciona

    Compliance: entenda o conceito, os tipos e como aplicá-lo no ambiente empresarial

    A crescente complexidade das relações empresariais, aliada ao aumento da fiscalização e da responsabilização das organizações, trouxe o compliance para o centro das atenções jurídicas e corporativas.

    Muito além de uma simples exigência normativa, trata-se de uma estratégia essencial para garantir a integridade e a perenidade dos negócios.

    Neste artigo, exploramos o conceito de compliance, os principais tipos existentes e como implementar um programa eficaz nas empresas, especialmente sob a ótica da atuação jurídica.

    O que é compliance?

    O termo compliance deriva do verbo inglês to comply, que significa estar em conformidade. No contexto corporativo, refere-se à adoção de práticas internas que assegurem o cumprimento de leis, regulamentos, normas setoriais e políticas internas.

    Contudo, o compliance vai além da obediência formal à legislação. Ele se traduz em um conjunto estruturado de mecanismos que visam promover a ética, a transparência e a integridade nas relações da empresa com todos os seus stakeholders — clientes, fornecedores, colaboradores, investidores e poder público.

    Qual é a importância do compliance nas organizações?

    Para os advogados que atuam em assessoria empresarial ou contencioso estratégico, compreender a relevância do compliance é indispensável.

    O tema tornou-se prioritário após episódios de grande repercussão envolvendo corrupção, fraudes contábeis e violações de normas regulatórias.

    Empresas que não adotam mecanismos de integridade ficam mais expostas a riscos legais, financeiros e reputacionais, além de estarem mais vulneráveis a penalidades impostas por órgãos de controle e fiscalização.

    Além disso, um programa de compliance bem estruturado pode ser considerado como atenuante na aplicação de sanções, conforme previsto na Lei nº 12.846/2013 (Lei Anticorrupção), representando não apenas uma obrigação, mas também um diferencial competitivo.

    Quais legislações dialogam com o compliance?

    Duas legislações se destacam no cenário atual:

    • Lei Anticorrupção (Lei nº 12.846/2013): atribui responsabilidade objetiva à pessoa jurídica pela prática de atos lesivos contra a administração pública, nacional ou estrangeira. A existência de um programa de integridade pode influenciar na dosimetria das sanções aplicadas.
    • Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018): impõe às organizações obrigações relacionadas ao tratamento de dados pessoais, exigindo conformidade com padrões técnicos e administrativos, sob pena de sanções e danos à imagem institucional.

    Além dessas, outras normas também compõem o arcabouço jurídico relacionado ao compliance, como:

    • Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998),
    • Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992),
    • Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021),
    • Lei Antitruste (Lei nº 12.529/2011), entre outras.
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    Quais são os pilares de um programa de compliance?

    A efetividade de um programa de compliance depende da observância de pilares considerados essenciais, reconhecidos internacionalmente. Entre eles:

    1. Comprometimento da alta direção;
    2. Identificação e análise de riscos (risk assessment);
    3. Códigos de conduta e políticas internas;
    4. Controles internos e procedimentos operacionais;
    5. Canal de denúncias seguro e anônimo;
    6. Treinamento e comunicação contínuos;
    7. Investigações internas independentes;
    8. Due diligence com parceiros e terceiros.

    O engajamento da liderança é um dos fatores mais relevantes, pois demonstra o alinhamento ético da empresa "de cima para baixo", incentivando a cultura da integridade entre todos os colaboradores.

    Principais tipos de compliance

    O compliance pode ser segmentado de acordo com a área de atuação da empresa e os riscos mais recorrentes no setor. Veja os principais tipos:

    I - Compliance empresarial

    Voltado à gestão global da conformidade nas operações da empresa, com foco em integridade corporativa, prevenção à corrupção e fraudes.

    II - Compliance trabalhista

    Assegura o cumprimento das normas da CLT, acordos e convenções coletivas, além de diretrizes sobre assédio, discriminação e segurança do trabalho.

    III - Compliance tributário

    Busca garantir a correta apuração e pagamento de tributos, reduzindo a exposição a autuações e litígios fiscais.

    IV - Compliance financeiro

    Previne fraudes, lavagem de dinheiro e irregularidades nas movimentações financeiras, especialmente em empresas do setor bancário, fintechs e seguradoras.

    V - Compliance ambiental

    Relaciona-se à conformidade com normas ambientais, minimizando os impactos da atividade econômica ao meio ambiente e fortalecendo práticas sustentáveis e de ESG.

    VI - Compliance criminal

    Visa prevenir a prática de crimes corporativos, sobretudo os que envolvem corrupção, fraudes, concorrência desleal e lavagem de dinheiro.

    VII - Compliance social

    Relaciona-se à responsabilidade socioambiental da empresa, promovendo ações éticas e sustentáveis no âmbito interno e externo.

    VIII - Compliance na administração pública

    Aplica-se a empresas que mantêm relações contratuais com o setor público, exigindo maior controle sobre licitações, contratos administrativos e integridade nas relações institucionais.

    A importância do canal de denúncias

    Um dos instrumentos mais valiosos em qualquer programa de compliance é o canal de denúncias, que deve possibilitar a comunicação segura e, preferencialmente, anônima de condutas inadequadas.

    É fundamental que esse canal seja gerido com confidencialidade, imparcialidade e mecanismos de resposta, permitindo a investigação dos fatos e a adoção de medidas corretivas. A credibilidade do programa está diretamente relacionada à eficácia desse instrumento.

    Qual o papel do advogado na estruturação de um programa de compliance?

    O profissional jurídico exerce função estratégica na implementação e no acompanhamento do compliance nas empresas. Sua atuação envolve:

    • Diagnóstico normativo e mapeamento de riscos;
    • Elaboração ou revisão de códigos de conduta;
    • Redação de políticas internas;
    • Treinamentos e workshops com os colaboradores;
    • Gestão de crises e condução de investigações internas;
    • Suporte jurídico na due diligence com terceiros.

    Além disso, o advogado pode atuar como compliance officer ou prestar consultoria externa especializada, especialmente em setores regulados ou de alto risco.

    Benefícios da implementação do compliance

    A adoção de um programa de integridade traz vantagens expressivas para a organização, como:

    • Prevenção de sanções administrativas e judiciais;
    • Redução de perdas financeiras e operacionais;
    • Fortalecimento da reputação institucional;
    • Aumento da confiança de investidores e stakeholders;
    • Melhoria da governança e da cultura organizacional.

    Considerações finais

    O compliance deixou de ser apenas uma tendência e passou a ser uma exigência para empresas que desejam crescer com solidez e reputação no mercado.

    Para os advogados, trata-se de um campo de atuação promissor, que demanda conhecimento técnico, visão estratégica e atualização constante.

    Seja para prevenir riscos, atender exigências legais ou promover a cultura da ética, o compliance é, sem dúvida, um aliado indispensável do direito empresarial contemporâneo.

    O conteúdo desta página refere-se à legislação vigente no momento da publicação.